RELATÓRIO SOBRE A IMPORTÂNCIA DO TREINAMENTO CORPORAL PARA O TRABALHO DO ATOR

por Vitor Hugo


 

O Treinamento Corporal constante a que nosso grupo está sendo submetido serve como suporte para a realização do fazer teatral, pois funciona tanto preparação física, como crescimento pessoal, quanto à busca de uma ética corporal.

 

 

Um ator completo necessita para uma perfeita e enérgica atuação desenvolver habilidades que o diferenciem do ser humano cotidiano com seus vícios e manias corporais adquiridos com o passar dos anos, ou seja, precisa de uma postura extra-cotidiana.

 

 

Entenda-se como postura extra-cotidiana as atividades na qual nosso organismo não está acostumado a executar durante o dia a dia. Essas posturas exigem um esforço excessivo de certas partes do corpo a qual nosso organismo não está adaptado.

 

 

O corpo do ator é sua ferramenta de trabalho e, portanto, não pode nunca estar desgastada e sem constante manutenção, pois através do seu corpo e suas habilidades corporais o ator faz com que uma natureza corporal cotidiana e estática ganhe expressividade e se torne crível de que o ator está realmente interpretando outra "persona" que não a sua cotidiana.

 

 

Todo ator precisa do seu corpo como veículo para criação teatral. Não um corpo duplo, em que o corpo e a mente estão separados, mas sim em sua totalidade, na arte que emana desta pessoa em sua integralidade: o ator. E nosso treinamento com o Wilson é focado nesta união mente e corpo.

 

 

Todo bom ator deve ter um repertório corporal que sirva de base para a construção do movimento corporal de seus futuros personagens. Comumente notamos que atores que possuem formação em dança, têm mais facilidade em criar uma partitura de movimentos não-convencionais, do que os atores que não possuem este tipo de formação. Esta constatação só reforça a necessidade do desenvolvimento das habilidades corporais do ator, como uma forma de aprimorar a qualidade corporal expressiva de seus personagens.

 

 

O constante trabalho corporal de que estamos participando impede que, quando necessitarmos utilizar movimentos extra cotidianos na composição corporal de algum personagem, não soframos dores musculares ou lesões em virtude de não estarmos constantemente em treinamento.

 

 

O personagem que o ator representa é quem estabelece a relação com o público, porém é a presença física atuante e enérgica do ator que garante e da credibilidade e significado à atuação.

 

 

O treinamento constante garante um repertório corporal mais rico. Através da utilização de recursos de outras artes, como algumas artes marciais, que exigem concentração total e disciplina o ator desenvolve maneiras de fugir do movimento cotidiano.

 

 

O trabalho semanal que realizamos com o Wilson desenvolve não somente habilidades corporais, como também o ser humano em sua totalidade, pois além de trabalharmos com nosso corpo somos obrigados a estar totalmente centrados e concentrados no que estamos fazendo para que o treinamento com base nas artes marciais seja eficaz.

 

 

Este treinamento que estamos participando faz parte de um processo de descoberta do ator, e não da personagem. Das descobertas de nossas inesgotáveis possibilidades corporais, da ampliação de nosso movimento, da relação do nosso corpo com o outro e com o espaço.

 

 

Este treinamento do qual estamos participando não é meramente físico, pois os exercícios propostos pelo Wilson visam construir pontes entre o físico e o mental, e todos sabemos que um ator não deve apenas praticar exercícios de forma repetitiva, baseada na cópia, como é feito pelos adeptos do balé clássico. O ator tem que pensar.

 

 

O pensar não se refere apenas ao desenvolvimento intelectual e sim, desenvolver uma inteligência corpóreo-cinestésica, ou seja, a capacidade de utilizar o próprio corpo de várias formas, altamente diferenciadas e hábeis, com propósitos expressivos, atendendo a objetivos intencionalmente determinados, ou seja, um corpo como um todo, que interage com seu meio e consigo mesmo. Sensitivo e perceptivo tanto a estímulos exteriores, quanto aos referentes às sensações cinestésicas que nascem a partir do seu próprio corpo.(XAVIER, 1998:12).

 

 

Grotowski cita que o treinamento vai além do desenvolvimento das habilidades corporais e mentais. Para o diretor polonês, o treinamento é também um meio de desenvolvimento pessoal, fora da profissão. Essa forma de pensamento, onde se busca a formação do ator em sua totalidade, não é nova. Na França, na primeira metade do século XX, tanto Copeau, como Jouvet e Dullin, buscavam a formação do ator "completo". Ambos primavam pelo desenvolvimento das habilidades físicas e mentais, mas, sobretudo, pela ética do ator.

 

 

Diariamente surgem infindáveis métodos diferentes de treinamento, todos objetivando basicamente sensibilizar o ator e deixá-lo em estado de criatividade. Porém, observa-se que algumas práticas buscam levar o ator a este estágio a partir de um trabalho físico baseado na exaustão e na dor sem fazê-lo também pensar.

 

 

Acho que o treinamento corporal que o ANTROPOFOCUS vem participando visa aprimorar técnicas que possam fazer parte do nosso treinamento para criação de um corpo extra-cotidiano, englobando tanto preparação física e crescimento pessoal, quanto a busca de uma ética corporal.

 

 

 

 

Câmera: Célio Savi

Edição: Andrei Moscheto

 

O professor Wilson Sagae dá aulas de Aikido e de Técnica de Respiração & Desenvolvimento de Ki no Centro de Desenvolvimento de Ki – Rua Sete de Abril, 830, 2 andar, tel 3263-1217