Nós em Córdoba – Diário de viagem 01
26/10/09
Viajar é sempre bom, mas fazer a primeira viagem internacional com o grupo é melhor ainda! É meio mágico saber que, próximos de completar 9 anos de existência, fizemos a nossa primeira apresentação internacional que foi – se tudo der certo (e tem dado!) – a primeira de muitas.
Coisas que devemos aprender com a experiência:
Passaporte é bom e o pessoal do aeroporto gosta!
Chegamos pra viajar, todos alegres e fagueiros (sentiu o uso dos adjetivos de outrora?). Antes de sairmos de casa, ainda cobrei a Anne se ela estava com seus documentos. Documentos ok. Dinheiro ok. Bagagem ok. Vamos nessa!
Chegamos ao Afonso Penna quase que pontualmente – aquela chuva, como sempre. Vamos embarcar e lá vou eu, feliz e cheio de alegria fazer check in e o moço me olha e diz "RG por favor", ao qual replico "Tá aí na carteira de motorista", ao qual ele me replica "pra viajar tem que ter RG, carteira de motorista não vale", ao que eu replico "OPS!".
Pouco mais de uma hora para embarcar, sem carro – porque fomos de van, junto com o cenário e já tinha ido embora – eu e o nosso sonoplasta Célio Savi presos na mesma armadilha de achar que a ‘de motorista substituía tudo. E agora? Prejú no taxi.
Benza deus que achei num dos taxis branquinhos o Seu Maringá, que foi e voltou na minha casa em tempo recorde e ainda me deu um belo desconto. Chego lá e estou pronto para o embarque. E o Célio? Não achou a carteira dele, só vai embarcar amanhã. Ainda pagou mais que o dobro do que eu paguei em taxi.
Depois de muita chuva e de descobrir que a Anne morre de medo de decolagem, aterrissagem, vôo e não gosta de aeroportos, chegamos em Córdoba. Quatro da matina. O festival foi super eficiente, tinha um motorista que estava nos esperando lá há mais de 3 horas, já vesgo de sono. Fomos pro hotel, quando começamos a gastar o nosso portunhol ma-ra-vi-lho-so. A viagem de avião foi curta, mas as esperas nos aeroportos não. Essa é a cara do povo no dia seguinte.
Primeiro conflito lingüístico. A Anne vai pedir para falar com os meninos via telefone, no balcão de entrada do hotel. Ela pede para falar com o quarto 203. A moça não entende. Ela diz mais lentamente e com mais espanholzinação possível: Cuahhrtoh Dooocientos y Triês! A moça continua sem entender, ela se desespera e pede ajuda. É claro que a moça do balcão não entendia, porque os meninos estavam no quarto 403, nem tinha 203 no hotel.
Segundo conflito (e esqueçam que eu vou falar de todos eles). Vamos almoçar. Nos oferecem uma salada Cesar, que era basicamente alface, três cubos de frango e um pouco de queijo ralado. Comemos certos de que aquilo era a entrada e que viria um prato principal na sequência. A garçonete vem e diz "Postre?" e a nossa anja (pessoa que acompanha o grupo visitante, a Dolores) diz um "Si", ao qual todos nós replicamos "si, si si". Mal sabíamos que já era a sobremesa. Do outro lado da mesa, o Gugu-neném do Jairo olha pra mim, com uma tristeza no olhar, como se dissesse que já estava sentindo falta da comida da mamãe. Acho que nem foi o olhar dele que disse isso, foi o estômago. Alface – lechuga – virou sinônimo de passar fome no grupo.
Ainda bem que eles acharam as tais empanadas para comer. A gente não sabe, até hoje, se aquelas realmente eram as melhores empanadas que existem em toda Córdoba, ou se a fome afetou sensivelmente nosso paladar!
De noite, quando fomos sair para jantar, tivemos um momento para refletir sobre a qualidade do nosso espanhol, durante nosso primeiro dia na Argentina.
Para jantar naquela noite – que medo de "lechuga" de novo – o pessoal do festival nos ensinou como chegar no restaurante a pé. Claro que, na hora, a gente entendeu tudo! Mas e pra chegar mesmo no restaurante? "Como era mesmo o nome do lugar?" "qual era o nome da rua?" "Se a gente falar pras pessoas "Restaurante Lechuga" elas vão entender?" Lá fomos nós e, com um pouco de paciência, acertamos a rua – que tinha nome de time de futebol, o que facilitou muito para a memória do Marcelo Rodrigues.
No meio do caminho, encontramos uma galera dos motoristas e cobradores de ônibus, protestando por melhores condições. É claro que a gente não podia perder a oportunidade de zoar com essa bagunça toda.
E este foi só o primeiro dia!
Aquele abraço
Como assim “Tegucigalpa”?
25/09/09
Acho que estou confundindo a minha profissão de blogueiro com algum tipo de substitutivo para o confessionário católico, que não frequento desde os 15 anos de idade. Ou o divã do psiquiatra, ou a roda de amigos para quem, depois da segunda garrafa de vinho, você conta uns segredos enterrados debaixo do seu baú de memórias. Foi assim com o texto dos nojos. Meus amigos descobriram sobre o fato de não gostar de beterraba e agora usam isso coma minha nova kriptonita.
O paralelo com o Super-Homem vem a calhar, não por me achar invulnerável-invencível-inodoro-insípido-incolor e sexy com a sunga por cima da calça, mas pelo EUAcentrismo das notícias da nossa vida. Fora as baixarias do Sarney, as palhaçadas do milagre da multiplicação dos nossos vereadores e umas fofocas do meu condomínio (deus abençoe o porteiro bem informado), o lugar de onde mais tenho notícia é do norte da nossa América. Depois, da Europa (não toda ela, os "importantes"), Rússia, China. Daí vem o Japão, a Austrália e a África do Sul. Talvez o México, as coisas ruins do Oriente Médio, e a Argentina na hora de fazer piadas.
O resto do mundo não te parece uma grande mancha amorfa? Se alguém fizesse um teste com você, mostrando o formato físico desses países, quantos será que a gente acertaria? Acho que seria como um daqueles testes psicológicos de Rorschach, aqueles das manchas. A pessoa me mostra o mapa da Namíbia e eu falo "copo com canudinho"?
Foi uma redescoberta saber que Honduras existe, que tem um governo, e que é cheio de gente confusa como nós. Tem, ainda, um presidente deposto que usa chapéu parecido com o do José Eduardo, aquele banqueiro/político paranaense. Ambos fizeram compras baseados no seriado de tevê Dallas.
Lembra como eram difíceis os testes de geografia e que você, como eu, teve que memorizar Tegucigalpa? Fomos preparados na escola para, exclusivamente, entender a notícia que passa agora nos jornais e não achar que a embaixada brasileira está localizada em algum cemitério maia/asteca/inca (fiquei na dúvida de qual das tribos estava naquela região e me deu uma preguiça profunda de wikipediar ou googlar o assunto).
Será que as crises mundiais e guerras servem pra isso, para que lembremos dos países que não estavam detalhados no tabuleiro do jogo WAR?
Trocando em miúdos: o nojo nosso da cada dia
11/09/09
Você não acha maravilhoso comer alguma coisa que os outros achem nojento? Talvez você não ache isso, caro leitor desavisado do conteúdo deste artigo. Se você é desses que tem nojo muito fácil desaconselho a continuar lendo este artigo – e de nunca abrir as páginas de política nos jornais sérios do nosso país.
Comer algo que outra pessoa não come é uma espécie de poder. É como se você estivesse numa turma a parte da sociedade, compartilhando um código só entre os seus. Pimenta, que não é algo nojento, é um bom exemplo para começar. Os comedores de pimentam se gabam da fraqueza dos temperinhos que nós, normais, usamos em nossa comida. Eles compartinham piscadas de canto de olho quando vêem um amador tentando comer uma pimenta forte e verte lágrimas de seu olho.
Eu sou um comedor de língua de boi, algo que é o cúmulo do nojento para muitas pessoas. Culpa da minha avó, que faz uma língua ao molho vermelho com ervilhas como ninguém. Para mim, sempre foi uma carne muito macia e gostosa e nada mais que isso. Para os outros, é como se estar comendo a língua do boi não fosse possível de desatrelar da imagem de estar mastigando a língua babada de um boi vivo. É isso que você também acha, leitor? Isso é muito ilógico, pra mim. É como se eu fosse pensar na galinha viva enquanto come ela, e isso seria bem ruim ao comer a sambiquira, não é?
(Conheço um caso real, de um amigo que não come galinha assada, porque está no formato de uma galinha quase viva. Se for um peito de frango ma chapa, sem problemas!)
Do boi eu também não tenho problema de comer bucho. Também o fígado acho delicioso, e pode ser o da galinha também. Uma comida que eu gosto bastante e que já perdeu bastante da má fama de "ui, que nojo" é peixe cru, mas mesmo assim tem gente que acha que é o mais próximo de uma experiência traumática.
É claro que tem coisas que eu acho nojento. Beterraba, por exemplo. Acho nojento. Pronto, falei! Sei o que você está pensando, neste momento meu confessional: o cara come língua, bucho e não come beterraba?! Não sei explicar. Isso vem daquela área ilógica do seu cérebro que cria as pequenas diferenças entre você e o resto do mundo ao seu redor.
Tem gente no mundo que come insetos. Tem gente que come miolos de macaco. Tem gente que come beterraba! O mundo está cheio de pessoas que tem hábitos nojentos para uns e normais para outros pares de olhos. Tomara que este preconceito alimentício não nos proiba de experimentar sabores diferentes daqueles aos quais estamos acostumados, e que possamos deixar nossos nojos de lado quando enfrentamos situações sociais que necessitam da nossa pose de embaixador. Falo isso e viajo mentalmente até aquele jantar na caso dos sogros, com a salada de beterraba me encarando.
Qual é o seu nojo incomum? Deixe o seu comentário aqui.
Aquele abraço
Que horas chega o seu mau humor?
09/09/09
Existem dualismos na nossa sociedade aos quais não escapamos. Você com certeza pertence ao grupo pró-cães ou ao grupo pró-gatos – mesmo que seja contra ter bichos de estimação – e já tem toda uma teoria pronta sobre quais são os pontos negativos do quadrúpede que você não estima. Talvez você torça para um dos dois grandes times da capital do seu estado e "saiba" de todas as boas razões para se torcer por este time e não aquele.
Não é recente a descoberta de que pessoas de opiniões diferentes se juntam todos os dias, mas descobrir que normalmente os casais são compostos por uma pessoa que funciona de manhã e outra de funciona de noite é algo que impressiona. Você sabe a qual desses grupos pertece, não sabe? Se não souber, analise as questões abaixo:
a) de manhã eu quero cantar ou quero que meu vizinho cale a boca e desligue aquela maldita máquina de lavar
b) de noite eu quero curtir a vida ou vejo a miragem de uma cama fofa, com coberta e o som de chuva lá fora
Os matutinos e os noturnos são duas raças bastante opostas e parecem atrair características tão profundas quanto a dos signos do zodíaco. Na minha última pesquisa Data-Moscheto, na qual conversei com um número surpreendente de casais (três), descobri que todos eram compostos por uma pessoa matutina e um noturno (havendo entre eles apenas um ser que não era nem matutino nem noturno, pois não funciona em nenhum dos horários). Isso foi uma descoberta impressionante, pois chamar alguém que está de bom humor quando você está no pior dos humores pode explicar o grande número de divórcios no país!
Na verdade há lógica nesta loucura. As pessoas variam os pólos elétricos dentro de uma casa durante o correr de um dia, quem é o lado positivo e quem é o negativo. Assim, quando chega o mau humor de um o outro está bem e vice versa. O casal sofre, mas o ambiente em que vivem continua em harmonia. Acho que o budismo deve defender este tipo de comportamento.
Epa! Pensando bem, acho que os católicos fervorosos, aqueles que acreditam que o sofrimento é a base para a construção de uma boa vida eterna, devem adorar este fenômeno dos opostos. O que pode testar mais a sua fé do que acordar contra a sua vontade, numa segunda de manhã, e encontrar a pessoa ao seu lado ótima, sorrindo, agitando, apontando para o fato que você está atrasada? Ou você estar em processo de entrada no mundo dos sonhos e a pessoa ao seu lado está super no pique, querendo conversar sobre múltiplos assuntos da vida?
Assunto longe de estar esgotado. Voltarei a ele com certeza.
Aquele abraço
A Ressaca da Gripe Suína
04/09/09
Cara, que Tamiflu foi esse que me atropelou? Poxa… Lenços de papel por todo lado, álcool gel no balcão. E essa coceira no nariz lazarenta que eu tou sentido, começa do lado esquerdo e corre de levinho pro meio do nariz, como se fosse um micro hamster correndo dentro da cartilagem e arranhando tudo, arranhando muito, de um jeito que eu não vou agüentar mais,l eu vou, eu vou, eu vou…
NÃO COCE!
Ufa! Passou. Tomei controle dos meus atos, acho eu. Ufa! Eu consegui. Não toquei o meu rosto. Deixei a janela aberta. Lavei as mãos. Evitei lugares tumultuados. E agora?
Agora é saber que o ápice da neura da gripe passou, tão rápido quanto veio, deixando para trás alguns "regalos" sociais.
O primeiro é o acréscimo do álcool gel na nossa dieta. Algo de que eu nunca ouvi falar antes da paranóia toda hoje pertence ao balcão do restaurante, ao corredor do shopping, fica com a moça da caixa registradora, tá no bolso do cobrador de ônibus. Tenho a sensação de que um elemento estranho penetrou na cultua diária e que ninguém percebeu o quanto é alienígena. Algo parecido quando as pizzas começaram a receber tomate seco e funghi. Para muitos havia a sensação de que eles sempre estiveram lá, mas muitos de nós estávamos conscientes da invasão territorial.
O outro são as aulas das escolas estendidas a outros horários extras, mas com especial sadismo as que ocorrem aos sábados. SÁBADOS! Especialmente para quem estuda de manhã (como eu estudava) o sábado era a redenção, o momento de ficar um pouco mais na cama. Era a continuação da glória da sexta à noite! Mas agora é a antítese disso, é a morte da hora extra de cama, a redução de 50% de um final de semana que já parecia muito pequeno. Um pequeno drama do estudante de 2009.
Será que outros elementos foram efetivamente acrescidos de nossa cultura? A minha principal dúvida na verdade é sobre a nossa higiene. Não é meio assustador que uma epidemia dessas nos faça enxergar claramente que ainda temos péssimos hábitos de higiene e que estes são os principais responsáveis por nossas doenças? Eu me lembro das aulas de história nas quais eu conseguia imaginar as capitais antigas do mundo com seus esgotos abertos no centro, com lixo na rua esperando a próxima chuva, com merda de vaca por todos os lados.
Agora me pego do outro lado da história, imaginando um menino no futuro, mais ou menos na era da família Jetson, olhando para nós e dizendo: sério que eles não lavavam as mãos sempre? Tinham aéreas de lixão onde as coisas só apodreciam sem serem reaproveitadas? Nossa, eles deveriam ter um monte de doenças estúpidas por causa disso.
Deixo aqui, então, registrado em bits para este menino do futuro, um pequeno bloguinho contanto que um dia a nossa higiene foi ruim o suficiente para que atraísse doenças estúpidas e que pizza de tomate seco não era coisa normal.
Termino aqui o artigo, porque a coceira no nariz voltou. O rosto é meu, vou coçar, mas prometo lavar as mãos antes de escrever de novo pra vocês.


