Viagem

O bolo de Dennis, o motorista - foto de Michelle Galindo

Workshop de Improvisação com Keith Johnstone VI – Dennis, o motorista

Por que você faz o que você faz?

Essa é a pergunta assustadora que todas as pessoas tem que responder em algum momento de suas vidas. Seja por razões profissionais, éticas, sociais, amorosas, essa é uma pergunta difícil de sair com tranquilidade da garganta de qualquer um. Eu já ouvi essa pergunta de diversas bocas, especialmente de pessoas que não entendem exatamente o que eu faço, ou que não conseguem compreender que o que eu faço é um trabalho. Mas eu já gaguejei várias vezes ao tentar responder essa pergunta, porque muitas vezes eu tive dúvidas em relação as minhas escolhas – assim como você, leitor.

Durante o nosso workshop, eu conheci Dennis. Ele foi o motorista do ônibus que, todos os dias de manhã levava o nosso grupo para o workshop e levava a gente de volta no final da tarde. Desde o primeiro dia ele sempre foi muito simpático, um homem com um sorriso bonito. Ele acabou ficando curioso sobre a natureza do nosso curso e começou a ver alguns finais de aula. Para todos nós parecia algo natural, e era muito bom tê-lo próximo também em outros momentos.

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Dennis, o motorista, em auto-foto

No nosso primeiro final de semana durante o curso, foi organizada uma noite de improvisação brasileira. Seria uma noite bilíngue, porque tem uma pequena comunidade brasileira em Calgary que foi convidada. Dennis estava lá, curioso, assistindo a nossa apresentação. Márcio Ballas, que foi o Mestre de Cerimônias da noite, teve uma fina percepção e, durante várias vezes naquela noite, ele faria a seguinte brincadeira. De vez em quando, ele começava a falar com um tom um pouquinho mais solene, e dizia assim:

- Devemos também homenagear o nosso convidado especial desta noite, uma pessoa que tornou esta noite possível, uma pessoa que merece os nossos aplausos. O nosso convidado de honra: DENNIS!

E lá ia o Marcio Ballas para o meio da platéia abraçar o tímido Dennis. Isso aconteceu algumas vezes, todas as vezes ruborizando um pouquinho mais o nosso motorista. Se alguém do nosso grupo de alunos ainda não conhecia o nome do motorista, passou a saber o nome dele a partir daquela noite.

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O bolo de Dennis, o motorista - foto de Michelle Gallindo

No penúltimo dia de aula, no final da aula, tivemos uma surpresa. Dennis apareceu com um bolo, todo decorado. Era um presente especial da nós, pela semana que passamos juntos. Isso já tinha deixado a todos muito felizes, mas quando fui buscar umas xícaras limpas para um café, foi que o Erik (uma das pessoas que ajudou a organizar todo o workshop) me contou que Dennis tinha tido alguns problemas pessoais. Parece que a esposa dele faleceu de um câncer, e ele mesmo era um sobrevivente de um tratamento difícil com esta mesma doença. A vida dele estava bem entristecida, mas daí ele teve “aquela” semana conosco.

Eu sou um manteiga derretida, então você pode imaginar como eu estava depois dessa história.

Então, quando alguém me pergunta hoje em dia porque eu faço o que eu faço, eu digo que é por causa do Dennis, um motorista do Canadá que queria sorrir de novo.

Eu e o macaco - foto de Daniel Nascimento

Workshop de Improvisação com Keith Johnstone IV – O macaco e eu

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Eu e o macaco – foto de Daniel Nascimento

Hoje eu atuei com um macaco de pelúcia. Esta é uma frase muito louca de se escrever. Parece pouca coisa, parece bobo, parece muitas coisas. Mas foi bastante revelador.

A única coisa que eu preciso dizer é: quando você viu a foto, você ficou reparando mais em mim ou no macaco? A sua resposta é a mesma da platéia aqui no Canadá.

Lembro que existe uma regra de ouro, falada pelos teatros brasileiros, de grande sapiência: nunca coloque uma criança ou um cachorro no palco, porque eles são mais interessantes do que qualquer ator.

Hoje, um macaco de pelúcia era mais interessante do que qualquer ator.

Nada mais a acrescentar para o momento.

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No Loose Moose - foto de Márcio Ballas

pinguim

Uma semana em Curitiba, a outra no Canadá – um brasileiro rumo ao workshop de improvisação com uma lenda viva

pinguim Uma semana em Curitiba, a outra no Canadá   um brasileiro rumo ao workshop de improvisação com uma lenda vivaEm época de frio, os passarinhos migram para regiões mais quentes. Mas eu, não. Estou a caminho do Canadá para fazer um workshop de improvisação, durante 10 dias, com o mestre de teatro Keith Johnstone. Serão dias intensos de trabalho, dedicação e de frio. Muito frio. Calgary não é conhecida como a cidade-sol do Canadá e é lá que fica o famoso Loose Moose Theatre, local mitológico do mundo da improvisação. Lá, no meio do frio.

Por que este vale encantando da improvisação não fica em Aruba? Ou no Havaí? Ou mesmo aqui do lado de Curitiba, em São José dos Pinhais? Porque toda a jornada de conhecimento vem com desafios extras, dirá para você qualquer contador de histórias. Não bastam as horas de voo, a distancia de casa e das pessoas amadas. Não basta as barras de cereais das escalas nacionais, as esperas em aeroportos, a expectativa que não será a sua mala que ficará perdida pelos recantos secretos da aviação internacional. Não basta. É preciso mais. Ou menos. Bem menos. Negativamente menos.

Podemos pegar de 31 graus até -9. A renite não vai me atacar, porque ela não vai entender o que está acontecendo. Não é uma mudança de temperatura, é um maluco entrando no forno ao sair da geladeira.

Dramático, eu? Talvez. Sim, é melhor fazer charme e se preparar para o pior e encontrar uma situação positiva. Todos os niilistas que passaram pela minha vida – e não se mataram – me ensinaram isso.

Vai valer a pena? Já valeu. Será um tempo grande dedicado a isso, a pensar sobre as infinitas possibilidades de se improvisar. Além do professor, estarei cercado de amigos improvisadores e de pessoas do mundo inteiro que buscam saber mais sobre essa arte. Estarei fora do meu habitat de segurança, contando histórias para estranhos e ouvindo suas façanhas ao redor das fogueiras, dos botecos, das televisões, dos cafés, de qualquer coisa que emita luz – ou calor.

Coloquei um vídeo abaixo, para que vocês conheçam meu futuro professor, infelizmente sem legendas. Ele diz algo muito sábio:

- Primeiro é preciso aprender a falhar e ficar feliz, depois a gente ensina o resto.

Estou pronto para falhar com o senhor, mestre. Não o desapontarei nisso.

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A mesma música em qualquer país do mundo

Alguns meses atrás, para meu divrtimento internético, alguém me mandou uma pérola. Uma caloura, do programa “American Idol” da Bulgária. Vejam, porque foi a partir dele qu tudo começou:

É sensacional. É isso mesmo, a música não se chama mais “Without you”, com ou sem sotaque. A música s chama, no mundo todo, de “Ken Lee”. É um sucesso chinês, praticamente.

Uma semana atrás, meus amigos paulistas me levaram num karaokê. Foi uma experiência sensacional, fazia muito tempo desde que eu não ia cantar velhas canções sem dar a mínima pra tom, ritmo e escambau.

Para a minha suprema felicidade, uma mulher cantou o sucesso internacional:

Obrigado aos amigos paulistas por me levarem a cantos da cidade nunca dantes navegados!

andrei improvavel

Improvisação na minha cidade natal – Joinville

Nasci em Santa Catarina, na cidade de Joinville. Eram 23h50 na maternidade Dona Helena, num tempo em que os médicos ainda não forçavam cesarianas para que os bebês venham ao mundo em horário comercial. Diz a lenda que cheguei rápido e rápido me mudei para o bairro do América, não muito longe dali. Graças as ruas de paralelepípedo e ao pouco movimento das ruas, tive uma infância de cidade do interior numa cidade grande, a maior do Estado – é a maior do estado sim, manezinho da ilha!

Foi lá que comecei a fazer teatro. Mesmo que tenha sido uma peça quando eu tinha apenas 8 anos, considero ela um marco da minha vida do palco.

Porque? (vou continuar este texto quando tiver uma conexão melhor)


andrei improvavel 300x222 Improvisação na minha cidade natal   Joinville